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quinta-feira, 28 de abril de 2016

BATALHA COTIDIANA - Fabio Augusto Machado

Apesar de tudo
Apesar de tantos...
De tanta oposição,
De tanta dificuldade,
De tanto preconceito,
De tanta desigualdade,
Nós encontramos na dor,
Nós encontramos na arte,
Nós encontramos na luta,
A nossa identidade!

Esse discurso maçante, da tal globalização,
Busca esconder a verdade da nossa situação.
Essa elite voraz afasta pra bem longe de si,
A pobreza que ela mesma fomenta, amplia, corrói, e ainda ri!

Pra piorar os mais pobres, ou mesmo os de classe média,
São doutrinados e enganados, diante da televisão.
É como na Roma antiga: do pão, do circo e a comédia.
O que se pretende é o silencio, frente a exploração...

A luta é injusta. Mas não ficaremos calados.
Não nos ajoelharemos e nem ficaremos sentados.
Partiremos pra guerra, com as melhores armas que temos.
E com toda a coragem e fervor, lutaremos!

E no combate do engano e da manipulação,
Minha arma são os livros: é a educação!
E contra o medo, o ódio, a ganância e o rancor,
Ofereço a verdade, minha arte, minha fé, meu amor...

sexta-feira, 22 de abril de 2016

PASÁRGADA? - Fabio Augusto Machado


O que eu não faria para viver esse amor?
Para cobri-te de beijos e sentir seu calor?
O que eu não faria pra te ver todo dia?
Para que o "tchau" não se transformasse em agonia?

Nada.
Não faria nada.
Não farei nada.
Pois a revelação desse amor, 
poderia trazer muita dor.

Sendo assim, aceitarei minha solidão.
Vivê-la-ei com força e resignação.
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito.
Mais uma vez, eu nada farei,
pois infelizmente, não sou amigo do rei...

terça-feira, 12 de abril de 2016

Se se morre de amor! – Gonçalves Dias



Se se morre de amor! — Não, não se morre,
Quando é fascinação que nos surpreende
De ruidoso sarau entre os festejos;
Quando luzes, calor, orquestra e flores
Assomos de prazer nos raiam n'alma,
Que embelezada e solta em tal ambiente
No que ouve, e no que vê prazer alcança!

Simpáticas feições, cintura breve,
Graciosa postura, porte airoso,
Uma fita, uma flor entre os cabelos,
Um quê mal definido, acaso podem
Num engano d'amor arrebatar-nos.
Mas isso amor não é; isso é delírio,
Devaneio, ilusão, que se esvaece
Ao som final da orquestra, ao derradeiro

Clarão, que as luzes no morrer despedem:
Se outro nome lhe dão, se amor o chamam,
D'amor igual ninguém sucumbe à perda.
Amor é vida; é ter constantemente
Alma, sentidos, coração — abertos
Ao grande, ao belo; é ser capaz d'extremos,
D'altas virtudes, té capaz de crimes!
Compr'ender o infinito, a imensidade,
E a natureza e Deus; gostar dos campos,
D'aves, flores, murmúrios solitários;
Buscar tristeza, a soledade, o ermo,
E ter o coração em riso e festa;
E à branda festa, ao riso da nossa alma
Fontes de pranto intercalar sem custo;
Conhecer o prazer e a desventura
No mesmo tempo, e ser no mesmo ponto
O ditoso, o misérrimo dos entes;
Isso é amor, e desse amor se morre!

Amar, e não saber, não ter coragem
Para dizer que amor que em nós sentimos;
Temer qu'olhos profanos nos devassem
O templo, onde a melhor porção da vida
Se concentra; onde avaros recatamos
Essa fonte de amor, esses tesouros
Inesgotáveis, d'ilusões floridas;
Sentir, sem que se veja, a quem se adora,
Compr'ender, sem lhe ouvir, seus pensamentos,
Segui-la, sem poder fitar seus olhos,
Amá-la, sem ousar dizer que amamos,
E, temendo roçar os seus vestidos,
Arder por afogá-la em mil abraços:
Isso é amor, e desse amor se morre!

Se tal paixão porém enfim transborda,
Se tem na terra o galardão devido
Em recíproco afeto; e unidas, uma,
Dois seres, duas vidas se procuram,
Entendem-se, confundem-se e penetram
Juntas — em puro céu d'êxtases puros:
Se logo a mão do fado as torna estranhas,
Se os duplica e separa, quando unidos
A mesma vida circulava em ambos;

Que será do que fica, e do que longe
Serve às borrascas de ludíbrio e escárnio?
Pode o raio num píncaro caindo,
Torná-lo dois, e o mar correr entre ambos;
Pode rachar o tronco levantado
E dois cimos depois verem-se erguidos,
Sinais mostrando da aliança antiga;
Dois corações porém, que juntos batem,
Que juntos vivem, — se os separam, morrem;
Ou se entre o próprio estrago inda vegetam,
Se aparência de vida, em mal, conservam,
Ãnsias cruas resumem do proscrito,
Que busca achar no berço a sepultura!

Esse, que sobrevive à própria ruína,
Ao seu viver do coração, — às gratas
Ilusões, quando em leito solitário,
Entre as sombras da noite, em larga insônia,
Devaneando, a futurar venturas,
Mostra-se e brinca a apetecida imagem;
Esse, que à dor tamanha não sucumbe,
Inveja a quem na sepultura encontra
Dos males seus o desejado termo!

Ps. Vale a pena ler essa análise deste maravilhoso poema de Gonçalves Dias, no site:

quinta-feira, 31 de março de 2016

AMOR ANGINOSO – Fabio Augusto Machado

O amor é paciente. O amor é bondoso.
O que sinto dói tanto, que é anginoso.

Tudo sofre. Sofrerei!
Tudo crê. Acreditarei.
Tudo espera. Esperarei?
Tudo suporta. Não suportei...

As profecias desaparecerão,
as línguas cessarão,
o conhecimento passará.
Mas esse amor, quem o terá?

segunda-feira, 28 de março de 2016

ESTRELA DA MANHÃ - (Manuel Bandeira)

Eu quero a estrela da manhã
Onde está a estrela da manhã?
Meus amigos meus inimigos
Procurem a estrela da manhã

Ela desapareceu ia nua
Desapareceu com quem?
Procurem por toda a parte

Digam que sou um homem sem orgulho
Um homem que aceita tudo
Que me importa? Eu quero a estrela da manhã

Três dias e três noites
Fui assassino e suicida
Ladrão, pulha, falsário

Virgem mal-sexuada
Atribuladora dos aflitos
Girafa de duas cabeças
Pecai por todos pecai com todos

Pecai com os malandros
Pecai com os sargentos
Pecai com os fuzileiros navais
Pecai de todas as maneiras

Com os gregos e com os troianos
Com o padre e com o sacristão
Com o leproso de Pouso Alto

Depois comigo

Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas
comerei terra e direi coisas de uma ternura tão simples
Que tu desfalecerás
Procurem por toda parte
Pura ou degradada até a última baixeza
eu quero a estrela da manhã

Nota do blog: O poema "Estrela da Manhã" é o meu poema favorito, do meu poeta favorito: Manuel Bandeira. Trata-se de um poema, ao mesmo tempo terno e que expressa o desejo carnal e inatingível pela tal "estrela" da manhã. A obsessão pela mulher amada é tamanha que nada mais importa (veja as repetições do "eu quero a..."); tampouco importa as condições dela: pura ou degrada até a última baixeza. O importante é tê-la! Simplesmente lindo...